Conteúdo
- 1 Acidente com Marília Mendonça: Lições de Pilotagem e Segurança
- 1.1 Contexto do Acidente com Marília Mendonça
- 1.2 Principais Fatores Contribuintes do Acidente com Marília Mendonça
- 1.3 Lições para Pilotos, Alunos e Entusiastas do Acidente com Marília Mendonça
- 1.4 Conclusão
Acidente com Marília Mendonça: Lições de Pilotagem e Segurança
Para quem estuda pilotagem ou vive o mundo da aviação geral, entender as causas de acidentes é uma das maneiras mais valiosas de fortalecer a cultura de segurança. E a análise técnica do acidente com Marília Mendonça, ocorrido em 5 de novembro de 2021, apesar de dolorosa, traz insights essenciais para o desenvolvimento da proficiência técnica.
Neste post, pois, vamos destacar, resumidamente, os principais pontos e relacioná-los com o relatório final do Centro de Prevenção e Investigação de Acidentes Aeronáuticos (CENIPA). Também vamos destacar lições importantes para pilotos privados, comerciais e entusiastas.
Contexto do Acidente com Marília Mendonça
Em 5 de novembro de 2021, um Beechcraft King Air C90A (prefixo PT-ONJ) caiu nas proximidades de Caratinga (MG), vitimando todos os ocupantes, incluindo a cantora Marília Mendonça.
O relatório final do CENIPA (A-121/2021) apontou os fatores contribuintes para a ocorrência, sem indicar erro mecânico grave[1].
As análises sérias, veiculadas por diversas fontes, analisaram esse relatório e compartilharam reflexões, cujas conclusões envolveram, principalmente, julgamento de pilotagem, tomada de decisão e fatores humanos.
Principais Fatores Contribuintes do Acidente com Marília Mendonça
Primeiramente, devemos esclarecer que a função das análises de acidentes aeronáuticos, realizadas pelos órgãos oficiais, NÃO têm por objetivo buscar culpados. Elas visam, unicamente, a entender quais os eventos ocorridas na dinâmica do acidente para a proposição de práticas que minimizem a ocorrência de acidentes futuros.
Resumindo, é estudar o passado para evitar novos acidentes pelas mesmas causas no futuro. E é isto que faz da aviação uma ciência cuja premissa básica é a segurança.
Avaliação Inadequada da Aproximação de Pouso
Inicialmente, vale destacar que o relatório do CENIPA denota que a “perna do vento” usada pelos pilotos foi significativamente maior à esperada para uma aeronave da categoria de desempenho B durante aproximação visual.
Segundo especialistas, uma das razões pelas quais o piloto pode ter tomado esta decisão seria a tentativa de tornar a aproximação mais confortável para os passageiros. Isto é algo comum em voos de táxi aéreo, mas que podem resultar em riscos se não for bem planejado.
Separação Muito Reduzida do Solo
Ainda no relatório oficial, há menção a uma separação de altura menor do que a ideal durante a aproximação, o que tornou a aeronave vulnerável a obstáculos. Alguns especialistas interpretam isso como possível foco dos pilotos na pista, possivelmente desconsiderando riscos fora de seu campo visual imediato.
Objeto de Impacto: Cabo de Alta Tensão
A aeronave, já na final de aproximação, acabou por colidir, infortunadamente, contra um cabo de transmissão de energia de alta tensão. O relatório do CENIPA afirma que esse cabo estava fora da zona formal de proteção do aeródromo, o que dificultava sua identificação como obstáculo, como vemos nas imagens a seguir.
A ausência de obrigatoriedade da sinalização para este cabo aumentou a complexidade da situação. Isto reforça a necessidade de conscientização situacional durante aproximações visuais e a execução de um bom planejamento com observação da área ao redor do aeródromo no qual se pretende operar.
Julgamento de Pilotagem e Experiência
O relatório menciona que o julgamento de pilotagem pode ter sido um dos fatores contribuintes para o acidente. O comandante tinha experiência significativa, mas pode ter sido influenciado por seu histórico de voos de maior porte, uma vez que ele já atuou como copiloto em aeronaves comerciais.
Essa experiência pregressa pode ter formado um “modelo mental” de aproximação que não se adaptou completamente à realidade operacional do aeródromo de Caratinga.
Fatores Humanos e Atenção
Outra hipótese levantada pelo relatório é a de que os pilotos estavam com a atenção visual voltada demais para a pista, em detrimento do terreno ao redor. Especialistas reforçam que esse tipo de comportamento pode surgir quando o piloto prioriza a estabilidade da trajetória de pista, especialmente em voos com passageiros ilustres. Entretanto, isso pode acabar afetando a percepção de obstáculos periféricos potencialmente perigosos.
Lições para Pilotos, Alunos e Entusiastas do Acidente com Marília Mendonça
Nunca subestime a importância de um perfil de aproximação adequado
Pilotos em formação devem praticar diferentes tipos de aproximação e compreender como decisões aparentemente “pouco arriscadas” (como alongar uma perna) podem alterar drasticamente os fatores de risco.
Pela imagem abaixo, podem-se observar diferentes ângulos de aproximação para pouso. De acordo com o ângulo adotado, o piloto terá impactos positivos e negativos na escolha da rampa de pouso. E, nesta observação, deve-se sopesar qual dos perfis trazem maiores benefícios e segurança para a operação.
O 'mito' da aproximação de baixo ângulo
Tendo como referência a imagem 3, vê-se que para a rampa em amarelo, o arredondamento precisa ser mais preciso e o giro da perna do vento para a perna base deve ser mais próximo à pista.
Isto pode acarretar em um pouso mais “duro”, desconfortável. Contudo, a aeronave se aproxima com maior altura, o que gera uma margem de manobra em caso de eventuais panes.
Já a rampa em vermelho, ao contrário, exige um alongamento da perna do vento para girar para a base. Isto leva a aeronave a se afastar da pista demasiadamente.
Em caso de eventual pane, a margem de manobra do piloto passa a ser menor. Entretanto, a aeronave prossegue com uma descida menos brusca, com menor razão de descida e o pouso tende a ser mais suave. E é este perfil, ao que tudo indica, que foi utilizado pelo piloto.
Por último, a rampa em verde denota um perfil mais balanceado, ocasionando um pouso razoavelmente confortável, com boa margem de segurança e sem a necessidade de se distanciar excessivamente do aeródromo.
A Dispersão Longitudinal
Estudos indicam que aproximações de baixo ângulo têm mais chances estatísticas de provocar um acidente, seja por incursão prematura, ou excursão de pista.
Isto porque a trajetória real tem a tendência de seguir um cone de variação, em razão dos fatores os quais influenciam na pilotagem, para cima e para baixo (dispersão longitudinal), modificando, então, o ponto de toque.
Em uma aproximação de baixo ângulo, esta dispersão longitudinal é maior. Apesar de o pouso aparentar ser mais seguro, devido a aeronave tocar o solo mais próxima da posição horizontal em relação ao solo, na prática, ela pode aumentar a distância de pouso e parada constante do manual da aeronave.
Cultura de conscientização situacional (SA)
Avaliar o terreno, os obstáculos visuais e possíveis obstáculos externos (como linhas de transmissão) deve fazer parte do planejamento, mesmo para aeródromos conhecidos.
Importância do julgamento e da experiência
Ter experiência é valioso, mas formar uma “memória operacional” sólida requer adaptação a cada tipo de aeródromo. Pilotos devem refletir continuamente sobre procedimentos, e não apenas repetir padrões passados. Lembrar-se sempre que um bom piloto não é o que tem mais experiência, mas sim aquele que está em constante processo de melhora.
Colaboração entre mecânicos e pilotos
É de se ressaltar que mecânicos, pilotos e instrutores podem e devem (ou pelo menos deveriam) trabalhar juntos. Isto pode reforçar a segurança das operações, através de discussões de lições extraídas de casos reais. Assim, seria possível aplicar melhorias nos procedimentos de voo e briefing.
Valorização de relatórios oficiais
Relatórios como o do CENIPA são ferramentas riquíssimas para aprendizado. Analisar esses documentos com olhos críticos ajuda a extrair lições valiosas que podem salvar vidas no futuro.
Conclusão
O acidente com Marília Mendonça é uma tragédia, mas, como muitos eventos na aviação, também contém lições profundas para todos os que estão na rota de formação ou buscam voar com segurança.
As análises técnicas de especialistas, cruzadas com o relatório oficial do CENIPA, revelam que não houve falha mecânica flagrante, mas sim um conjunto de fatores relacionados ao julgamento de pilotagem, à consciência situacional e à abordagem de aproximação.
Para alunos de piloto privado ou comercial, essas reflexões são extremamente relevantes. Elas denotam a importância de combinar conhecimento teórico, experiência prática e atenção ao detalhe, mesmo em rotas aparentemente rotineiras.
Afinal, a segurança na aviação é construída não somente pelo que fazemos em solo, mas por cada decisão tomada nos momentos críticos. E, mais uma vez, o bom piloto não é o que tem mais experiência, mas sim aquele que está em constante processo de melhora.
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